Soneto de escusa

Às vezes, quando a noite dói-se lenta,
Cansado o corpo e os olhos já dormentes,
Vacila-se a vigia, e, entrementes,
Do plácido vazio, brame a tormenta.

Às vezes, quando menos se espera,
De onde menos se espera nasce a chaga,
E eversa corpo e alma; mas é vaga -
E uma hora passa, mesmo sendo fera.

Se vivo na inconstância desta vida,
Que vem e volta e vai, mudando tudo,
Se a metempsicose é o que me resta,

Que seja, então, dos ais, que hoje pululam
As feridas ao fim de um velho dia,
Que se alcem as auras do Futuro!


 
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Fernando Fagundes